O repasse médico é o valor que a clínica paga ao profissional pelos atendimentos realizados, calculado a partir de um percentual ou valor fixo acordado em contrato, com desconto de custos operacionais e tributos aplicáveis. Para calcular corretamente, você define a base de cálculo (bruto ou líquido de taxas), aplica o percentual combinado e abate impostos e insumos. Este guia mostra cada etapa na prática.
O que é repasse médico e por que ele importa
Repasse médico (ou comissão de profissional de saúde) é a remuneração paga a médicos, dentistas, fisioterapeutas e demais especialistas que atuam em uma clínica sem serem os donos do negócio. Em vez de um salário fixo com vínculo empregatício, o mais comum é o modelo de parceria, no qual o profissional recebe uma fatia do que produziu.
O tema parece simples, mas é uma das maiores fontes de conflito e prejuízo em clínicas. Erros de cálculo, falta de transparência e ausência de regras claras corroem a confiança do profissional e podem gerar passivos trabalhistas e tributários. Uma gestão financeira madura trata o repasse como um processo com regras escritas, base de cálculo definida e conferência mensal.
Antes de qualquer conta, vale entender que o repasse é apenas uma peça do quebra-cabeça financeiro da clínica. Se a precificação e o controle de caixa estão frágeis, o cálculo de comissões apenas transfere o problema. Se quiser estruturar toda a base, vale ler antes o nosso guia de gestão financeira para clínicas.
Quais são os modelos de repasse mais usados?
Não existe um modelo único correto. A escolha depende do porte da clínica, da especialidade e do acordo com cada profissional. Os quatro formatos mais comuns são:
- Percentual sobre o faturamento do profissional: o mais utilizado. O profissional recebe, por exemplo, 60% de tudo o que produziu. A clínica fica com 40% para cobrir estrutura, equipe e lucro.
- Valor fixo por atendimento: paga-se um valor definido por consulta ou procedimento, independentemente do preço cobrado do paciente. Comum em plantões e em serviços padronizados.
- Aluguel de sala (locação): o profissional paga um valor fixo para usar a estrutura e fica com 100% do que fatura. Inverte a lógica do repasse: a clínica não comissiona, ela cobra.
- Modelo híbrido: combina, por exemplo, um valor fixo mensal mais um percentual sobre o que exceder uma meta de produção.
Na prática, o percentual sobre faturamento domina o mercado por ser simples de entender e alinhar interesses: quanto mais o profissional produz, mais ele e a clínica ganham.
Como decidir o percentual do repasse?
O percentual justo equilibra o custo real da estrutura com a atratividade para o profissional. Faixas praticadas variam bastante conforme a especialidade e quem traz o paciente:
| Situação | Faixa comum de repasse ao profissional |
|---|---|
| Profissional traz os próprios pacientes e usa estrutura mínima | Maior (mais próximo do topo) |
| Clínica capta o paciente, agenda e faz todo o suporte | Menor (mais próximo da base) |
| Procedimentos com alto custo de material e equipamento | Menor, pois insumos pesam no cálculo |
| Consultas simples, sem insumos relevantes | Maior, pois o custo variável é baixo |
A regra de ouro: quanto mais a clínica investe para gerar aquele atendimento (marketing, recepção, agendamento, materiais), menor tende a ser o percentual repassado. Por isso, entender quanto custa captar cada paciente — algo diretamente ligado ao marketing médico — é essencial para definir um percentual sustentável.
Como calcular o repasse médico passo a passo
O cálculo correto exige definir com clareza a base sobre a qual o percentual incide. Este é o ponto que mais gera discussão. Veja o passo a passo:
- Defina a base de cálculo. O repasse incide sobre o valor bruto pago pelo paciente ou sobre o valor líquido (já descontadas taxas de cartão, taxa de convênio e materiais)? Deixe isso explícito no contrato.
- Some a produção do período. Levante todos os atendimentos do profissional no mês, com valores efetivamente recebidos — nunca o que foi apenas faturado e ainda não pago.
- Abata custos diretos combinados. Materiais específicos, taxas de maquininha e, quando acordado, parte dos custos de convênio.
- Aplique o percentual de repasse. Multiplique a base ajustada pelo percentual do profissional.
- Desconte os tributos retidos na fonte. Conforme a relação jurídica (autônomo, PJ ou cooperado), incidem retenções específicas.
- Gere o comprovante e pague. Emita o relatório detalhado, anexe os documentos e efetue o pagamento na data combinada.
Exemplo prático de cálculo
Imagine um dermatologista que trabalha em modelo de parceria com repasse de 60%, e a clínica só recebe pagamentos via cartão e convênio. No mês, a produção efetivamente recebida foi de R$ 40.000. O acordo prevê que as taxas de cartão e materiais são descontadas antes de aplicar o percentual.
| Etapa | Valor |
|---|---|
| Produção recebida no mês | R$ 40.000,00 |
| (-) Taxas de cartão (média 3%) | - R$ 1.200,00 |
| (-) Materiais específicos usados | - R$ 800,00 |
| Base de cálculo ajustada | R$ 38.000,00 |
| Repasse ao profissional (60%) | R$ 22.800,00 |
| Fica com a clínica (40%) | R$ 15.200,00 |
Sobre o repasse ainda podem incidir retenções tributárias, detalhadas a seguir. O importante é que cada linha do cálculo seja rastreável: o profissional deve conseguir reconstruir o valor recebido sem depender da sua palavra.
Como os impostos afetam o repasse médico?
A tributação depende do formato jurídico da relação. Ignorá-la é o erro mais caro que uma clínica pode cometer, porque a responsabilidade pela retenção costuma ser da fonte pagadora — ou seja, da clínica. Os três cenários mais comuns:
- Profissional autônomo (pessoa física): a clínica retém o INSS na fonte à alíquota de 11%, respeitado o teto de contribuição, e o Imposto de Renda conforme a tabela progressiva mensal, cuja alíquota máxima é de 27,5%. Também pode haver retenção de ISS.
- Profissional pessoa jurídica (PJ): a clínica paga contra nota fiscal emitida pela empresa do profissional. Dependendo do serviço e do valor, há retenções de ISS, IR, PIS, Cofins e CSLL. A tributação efetiva total depende do regime da PJ (Simples, Presumido).
- Sociedade ou cooperativa: as regras variam conforme o contrato social e o enquadramento.
Sobre o ISS, a Lei Complementar nº 116/2003 estabelece que a alíquota máxima é de 5%, e a Emenda Constitucional definiu a mínima em 2%. A alíquota exata é definida por cada município, o que muda o cálculo de cidade para cidade.
Quando o profissional é PJ, a clínica recebe uma nota fiscal e precisa emitir a sua própria contra o paciente ou convênio. Para não errar nessa cadeia de documentos, vale revisar o passo a passo de emissão de NFS-e para clínicas.
Repasse gera vínculo trabalhista?
Pode gerar, se a relação, na prática, tiver os elementos de um emprego: pessoalidade, habitualidade, subordinação e onerosidade. Um contrato de parceria bem redigido reduz o risco, mas não basta se a rotina contradiz o papel. Escalas impostas unilateralmente, exclusividade obrigatória e controle rígido de jornada são sinais de alerta. Por isso, a formalização correta desde a abertura do negócio é decisiva — assunto que aprofundamos no guia de como abrir uma clínica.
Boas práticas para não errar no repasse
Além da matemática, a governança do processo evita conflitos e retrabalho. Adote estas práticas:
- Contrato escrito e específico: registre percentual, base de cálculo, o que é descontado antes do rateio, prazo de pagamento e política para faltas e cancelamentos.
- Repasse sobre o que foi recebido, não sobre o faturado: pagar comissão sobre convênios que ainda não caíram na conta descapitaliza a clínica. Alinhe o repasse ao fluxo de caixa real.
- Relatório mensal detalhado: cada profissional deve receber a lista de atendimentos, valores, descontos e o líquido a pagar.
- Tratamento claro de glosas e estornos: defina o que acontece quando um convênio glosa um atendimento já repassado. O ideal é ajustar no mês seguinte.
- Data fixa de pagamento: previsibilidade constrói confiança e profissionaliza a relação.
- Separação de contas: nunca misture o caixa da clínica com o dinheiro que pertence ao repasse.
O ponto crítico das glosas merece atenção. Um atendimento por convênio pode ser negado semanas depois, e se o repasse já foi pago, a clínica arca sozinha com o prejuízo. Definir em contrato que o repasse só ocorre após o recebimento — ou que glosas são compensadas no ciclo seguinte — protege o caixa.
Por que planilhas não escalam o controle de repasse?
No começo, uma planilha resolve. Com dois ou três profissionais e poucos atendimentos, dá para controlar manualmente. O problema aparece com o crescimento: dezenas de atendimentos por dia, formas de pagamento diferentes, convênios com prazos distintos e glosas retroativas transformam a conferência em um pesadelo mensal, sujeito a erro humano.
Um sistema de gestão automatiza a apuração: registra cada atendimento vinculado ao profissional, aplica o percentual configurado, desconta o que foi combinado e gera o relatório de repasse pronto. Isso elimina divergências e libera horas de trabalho administrativo. Sistemas especializados por área — como os de sistema para clínicas por especialidade — já trazem essa lógica adaptada ao fluxo de cada especialidade.
Se a sua clínica ainda controla repasses no papel ou em planilhas frágeis, a migração para uma ferramenta adequada costuma se pagar rápido em erros evitados. Fizemos um guia específico sobre isso: migração de sistema para clínicas.
Erros comuns que corroem a confiança do profissional
Repasse é tema sensível. Um erro repetido pode fazer você perder um bom profissional para um concorrente. Os deslizes mais frequentes:
- Não deixar claro se a base é bruta ou líquida — a maior fonte de discussão.
- Alterar o percentual sem renegociar formalmente.
- Atrasar o pagamento sem aviso.
- Repassar valores de convênio antes de recebê-los e sofrer com glosas depois.
- Não fornecer relatório detalhado, exigindo que o profissional confie “no escuro”.
- Ignorar as retenções tributárias e criar passivo fiscal.
A boa notícia: todos são evitáveis com contrato claro, processo padronizado e uma ferramenta que faz a conta de forma transparente. Quando você combina regras escritas com automação, o repasse deixa de ser fonte de atrito e passa a ser um diferencial competitivo para atrair bons profissionais.
Se está avaliando qual ferramenta usar para organizar isso, vale conferir os 12 critérios essenciais para escolher um sistema para clínicas antes de decidir.
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre repasse e comissão médica?
Na prática, os termos são usados como sinônimos no dia a dia das clínicas. “Repasse” enfatiza a ideia de transferir ao profissional a parte que lhe cabe da produção, enquanto “comissão” remete a um percentual sobre vendas. Ambos descrevem a remuneração variável paga ao profissional de saúde parceiro.
O repasse deve ser calculado sobre o valor bruto ou líquido?
Depende do que estiver acordado em contrato — e essa definição precisa ser explícita. Muitas clínicas calculam sobre o valor líquido, ou seja, após descontar taxas de cartão, materiais e taxas de convênio. Outras usam o bruto e negociam um percentual menor. O importante é registrar por escrito para evitar conflitos.
Quem é responsável por reter os impostos do repasse?
Quando o profissional é autônomo pessoa física, a clínica, como fonte pagadora, costuma ser responsável por reter o INSS (alíquota de 11%, respeitado o teto) e o IRRF conforme a tabela progressiva. Quando é PJ, o pagamento ocorre contra nota fiscal e as retenções variam conforme o serviço e o regime tributário. Consulte sua contabilidade para o enquadramento correto.
Repasse pode ser pago por PIX ou precisa de comprovante formal?
O meio de pagamento é livre, mas o comprovante formal é indispensável. Cada repasse deve ter um relatório detalhado dos atendimentos, valores, descontos e líquido pago, além do respaldo fiscal adequado (recibo de autônomo ou nota fiscal da PJ). Isso protege a clínica em fiscalizações e em eventuais discussões trabalhistas.
Como um sistema de gestão ajuda no repasse médico?
Um sistema vincula cada atendimento ao profissional responsável, aplica automaticamente o percentual configurado, desconta o que foi combinado e gera o relatório de repasse pronto para pagamento. Isso elimina erros de planilha, dá transparência ao profissional e reduz drasticamente o tempo gasto na apuração mensal. Conheça o sistema de gestão MenosClique para automatizar esse processo.
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